sexta-feira, 24 de julho de 2020

depois do escuro


Fim de tarde, o céu nublado, pensou no que ia comer no jantar enquanto contava novamente o dinheiro das rifas. Mais tarde ligaria para Márcia se ela não ligasse antes, amiga da época do Colégio Estadual, uma relação de confiança. Duas alunas novas numa turma onde todos já se conheciam, o pacto silencioso pela sobrevivência no ambiente desconhecido fez a aproximação ser natural. Lá embaixo, a rua XV lotada de pessoas saindo do trabalho, voltando para seus lares, uma hora de viagem se tiverem sorte, ficou feliz por morar no centro, pequenas formigas caminhando depois de um dia duro.

Os pequenos delitos diários, minuciosamente planejados, apenas um modo de levar a vida, Márcia se justificou numa lanchonete onde conversaram depois de uma trombada ao acaso, não se viam há anos. A complexidade das primeiras conversas, não sabia o que restava da intimidade daqueles tempos, foi testando o terreno. Depois de dois pingados, a certeza, de que vestiam o mesmo uniforme novamente e tinham acabado de fazer alguma prova, era quase palpável. O fato é que jamais escondi Maurício Albatroz, disse ela enquanto espantava os pombos com o pé. Não sabia porque tinha esse apelido, Márcia era Marcinha, um apelido autoexplicativo, desenhou mentalmente alguma ave que lembrasse um albatroz. Nem sei porque fiquei com aquele coitado, deve ter sido por pena, a confissão antes do julgamento, quis pedir mais um pingado.

Ligou a tv numa tentativa de dar alguma vida ao apartamento vazio e escuro, na mesa algumas sacolas do Mercadorama, acendeu o último cigarro da carteira. A busca eterna pelo início de tudo, o momento zero, onde tudo parece ser menos complexo, talvez Márcia fosse o começo, e se tivesse puxado assunto com a menina que sentava na frente, não lembrava o nome, poderia descobrir que tinham muitos gostos em comum e andariam juntas na hora do intervalo, a sucessão caótica de hipóteses foi interrompida pelo toque do telefone.

                - Oi, tudo pronto?
                - Oi Márcia, tudo sim, conseguiu o endereço do homem da cuíca d’água?
                - Consegui sim, vou passar aí e depois vou lá, já acertei tudo.
                - Beleza.

O esquema era simples, Márcia, a intermediadora, conhecia alguém que colecionava animais em cativeiro, um puto rico que mora em algum sítio, ela disse uma vez. Na semana anterior os fatos, uma cuíca d’água que apareceu no Parque Barigui e um corredor de final de semana que achou o animal. O animal no porta-malas do Ford Fiesta, nenhuma testemunha ocular, surtos esporádicos que questionam a racionalidade humana. Depois de alguns dias, a certeza de que não se tratava de um animal doméstico, pensou em soltar o animal em algum lugar, mas lembrou de uma amiga de um amigo que poderia ter interesse no animal, a materialização da possibilidade de algum retorno com aquele animal exótico.

As rifas faziam parte do processo de captação de recursos, uma licitação imaginária para satisfazer seus próprios desejos, um esquema de pirâmide menos sofisticado. O prêmio era uma camiseta oficial do Paraná Clube, começou a vender um mês antes, ficaria com o dinheiro e daria alguma parte para o vencedor, um conhecido, uma bela encenação. Talvez todas as rifas sejam assim e é por isso que eu nunca ganho nada, disse Márcia num tom inocente quando escutou sobre as rifas pela primeira vez, achou fascinante.

No colégio nunca se destacaram, nem tiveram dificuldades para passar com notas um pouco acima da média. Tinha gente que colava, mas a gente não, um dos primeiros assuntos naquele reencontro, um segundo começo. A sucessão lógica de tópicos foi obedecida inconscientemente, o presente, as rifas e o puto rico que colecionava animais em cativeiro. Pensou em ir com Márcia fechar o negócio da cuíca d’água, desistiu, não aceitou participar do negócio pela emoção do ato ilícito, só queria ganhar um pouco mais de dinheiro, o dobro segundo Márcia. Abriu a geladeira em busca de algum resto de comida, pegou uma maçã e voltou para a janela, a rua XV mais tranquila.

Sentiu raiva do corredor de final de semana, nunca tinha ouvido falar daquele animal, a súbita preocupação com o tempo de pena pelo tráfico ilegal de animais em risco de extinção, não sabia se estava em risco, ficou de pesquisar sobre o animal, mas esqueceu. Entregaria o puto rico para se salvar, um acordo, poderia até sair no jornal, imaginou o título da reportagem, quadrilha presa por tráfico ilegal de animais, a foto da cuíca d’água para ilustrar a notícia e por uma coincidência infeliz o repórter seria umas das pessoas que comprou a rifa, essa cidade é um ovo, disse em voz baixa. Se levantou para jogar o resto da maçã no lixo no mesmo instante em que o interfone tocou, o apartamento ainda escuro.