terça-feira, 15 de setembro de 2020

Livro sem título 1

Último dia de aula. Pegou a mochila do chão e colocou nas costas, dois cadernos e um livro.

- Milena, pra onde você vai viajar nas férias?

Deu de ombros, não sabia. As duas únicas amigas já no corredor, correram apressadas sem se despedir. A sala vazia, gostava de conversar com o professor. O professor, substituto, colocando o giz na caixa e o apagador no apoio do quadro. Quis perguntar se ele continuaria dando aula no ano seguinte, mas o ano seguinte parecia algo distante demais. Costumavam pegar o mesmo ônibus na hora do almoço, antes da aula. Um breve aceno, ele sozinho, ela lendo algum livro da seção “literatura latino-americana” da biblioteca do colégio. As conversas mais longas ficavam para a formalidade da sala de aula. Depois da chamada no final da aula, todos se apressavam para o intervalo, a fila da cantina era enorme. Em uma dessas conversas, perguntou porque os livros que lia não eram estudados em sala de aula. “Talvez eu peça um trabalho em grupo, aí vocês escolhem um escritor latino-americano, o que acha?”, “Deixa pra lá.”, lembrou do diálogo. Caminhou em silêncio até a mesa do professor, era caminho para a porta da sala. A melancolia do último dia de aula, felizmente o último, passou direto.

- Professor, poderia me indicar alguns livros? Quero ler nas férias.

- Claro! Você gosta de poesia? Tem o Pablo Neruda, ou talvez um romance, O Cortiço, logo vai ter que ler esse, quem sabe não adianta?

Escutou com atenção e anotou os nomes na última folha do caderno, cheio de rabiscos. Caminharam até a porta da sala, todas as salas do corredor vazias. Se despediram desejando boas férias, ele em direção à sala dos professores, ela para a quadra, talvez ainda tenha alguém lá, pensou. Espero que ele continue no colégio ano que vem, disse de si para si mesma enquanto descia as escadas num pequeno surto de alegria. Gostava de matar tempo na quadra, não porque encontrava suas amigas, mas porque podia sentar na pequena arquibancada e ficar olhando quem estivesse lá sem chamar atenção. Ali sentada, poderia ser apenas alguém esperando o horário para ir no dentista ou alguma carona. Na quadra, uma partida de futsal, a última antes das férias. O Sol vai se pondo, talvez um sorvete no shopping se não ficar muito tarde, ela pensa. Droga, esqueci de devolver esse livro. Subiu as escadas correndo até o segundo andar, a biblioteca deserta.

- Queria devolver esse livro.

- Ah sim.

- Obrigada.

Pensou em procurar os livros indicados pelo professor, mas desistiu, sem ânimo para voltar à quadra, caminhou pelo pátio até o portão principal, quase 18 horas. Em uma balança imaginária pesou as consequências de ir ou não ao shopping. Ao final, o argumento da autogratificação venceu, tomada de decisão objetiva. As luzes das lojas ofuscam qualquer pensamento, o sorvete de chocolate espera na praça de alimentação. A blusa amarrada na cintura, outros estudantes sentados conversando, ninguém que conhecesse. Senta em uma mesa vazia, a mochila ocupando a outra cadeira, estica as pernas como um gato depois de uma soneca no meio da tarde. Gostaria de viajar nas férias, visitar algum parente no interior, talvez sugerisse ao chegar em casa ou poderia esperar alguém adivinhar suas vontades, o resultado seria o mesmo. O sorvete de chocolate dá sede, a garrafinha meio cheia no bolso lateral da mochila, pelo menos não está quente, ela pensa enquanto abre a garrafinha.

Não havia uma razão em particular, mas mudava de escola com frequência, algumas vezes durante o ano letivo. No começo achava ruim, as amizades interrompidas. Naturalmente, na nova escola, ficava mais difícil se enturmar e, por consequência, não havia amizades para serem cortadas. Sem drama, se conformava, talvez na nova escola a biblioteca seja maior, pensava pelo lado positivo. Bibliotecas que costumava buscar como abrigo durante a correria do intervalo, o fascínio pela diferença do externo barulhento e o interno silencioso, separados pela porta da biblioteca, como se estivesse deixando a superfície de um mar agitado e mergulhando em direção aos corais. Nem sempre essa era a ordem dos fatores, na terceira escola a biblioteca ficava ao lado do pátio, silêncio nunca. O aviso prévio de que iria para uma nova escola ficava cada vez mais próximo do início das aulas. Na última, uma semana antes. Não entendia nem buscava entender.

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