Último dia de aula. Pegou a mochila do chão e colocou nas costas, dois cadernos e um livro.
- Milena, pra onde você vai viajar nas
férias?
Deu de ombros, não sabia. As duas
únicas amigas já no corredor, correram apressadas sem se despedir. A sala
vazia, gostava de conversar com o professor. O professor, substituto, colocando
o giz na caixa e o apagador no apoio do quadro. Quis perguntar se ele
continuaria dando aula no ano seguinte, mas o ano seguinte parecia algo
distante demais. Costumavam pegar o mesmo ônibus na hora do almoço, antes da
aula. Um breve aceno, ele sozinho, ela lendo algum livro da seção “literatura
latino-americana” da biblioteca do colégio. As conversas mais longas ficavam
para a formalidade da sala de aula. Depois da chamada no final da aula, todos
se apressavam para o intervalo, a fila da cantina era enorme. Em uma dessas
conversas, perguntou porque os livros que lia não eram estudados em sala de
aula. “Talvez eu peça um trabalho em grupo, aí vocês escolhem um escritor
latino-americano, o que acha?”, “Deixa pra lá.”, lembrou do diálogo. Caminhou
em silêncio até a mesa do professor, era caminho para a porta da sala. A
melancolia do último dia de aula, felizmente o último, passou direto.
- Professor, poderia me indicar alguns
livros? Quero ler nas férias.
- Claro! Você gosta de poesia? Tem o
Pablo Neruda, ou talvez um romance, O Cortiço, logo vai ter que ler esse, quem
sabe não adianta?
Escutou com atenção e anotou os nomes
na última folha do caderno, cheio de rabiscos. Caminharam até a porta da sala,
todas as salas do corredor vazias. Se despediram desejando boas férias, ele em
direção à sala dos professores, ela para a quadra, talvez ainda tenha alguém lá,
pensou. Espero que ele continue no colégio ano que vem, disse de si para si
mesma enquanto descia as escadas num pequeno surto de alegria. Gostava de matar
tempo na quadra, não porque encontrava suas amigas, mas porque podia sentar na
pequena arquibancada e ficar olhando quem estivesse lá sem chamar atenção. Ali
sentada, poderia ser apenas alguém esperando o horário para ir no dentista ou
alguma carona. Na quadra, uma partida de futsal, a última antes das férias. O
Sol vai se pondo, talvez um sorvete no shopping se não ficar muito tarde, ela
pensa. Droga, esqueci de devolver esse livro. Subiu as escadas correndo
até o segundo andar, a biblioteca deserta.
- Queria devolver esse livro.
- Ah sim.
- Obrigada.
Pensou em procurar os livros indicados
pelo professor, mas desistiu, sem ânimo para voltar à quadra, caminhou pelo
pátio até o portão principal, quase 18 horas. Em uma balança imaginária pesou
as consequências de ir ou não ao shopping. Ao final, o argumento da
autogratificação venceu, tomada de decisão objetiva. As luzes das lojas ofuscam
qualquer pensamento, o sorvete de chocolate espera na praça de alimentação. A
blusa amarrada na cintura, outros estudantes sentados conversando, ninguém que
conhecesse. Senta em uma mesa vazia, a mochila ocupando a outra cadeira, estica
as pernas como um gato depois de uma soneca no meio da tarde. Gostaria de
viajar nas férias, visitar algum parente no interior, talvez sugerisse ao
chegar em casa ou poderia esperar alguém adivinhar suas vontades, o resultado
seria o mesmo. O sorvete de chocolate dá sede, a garrafinha meio cheia no bolso
lateral da mochila, pelo menos não está quente, ela pensa enquanto abre a
garrafinha.
Não havia uma razão em particular, mas mudava
de escola com frequência, algumas vezes durante o ano letivo. No começo achava
ruim, as amizades interrompidas. Naturalmente, na nova escola, ficava mais
difícil se enturmar e, por consequência, não havia amizades para serem cortadas.
Sem drama, se conformava, talvez na nova escola a biblioteca seja maior,
pensava pelo lado positivo. Bibliotecas que costumava buscar como abrigo
durante a correria do intervalo, o fascínio pela diferença do externo
barulhento e o interno silencioso, separados pela porta da biblioteca, como se
estivesse deixando a superfície de um mar agitado e mergulhando em direção aos
corais. Nem sempre essa era a ordem dos fatores, na terceira escola a
biblioteca ficava ao lado do pátio, silêncio nunca. O aviso prévio de que iria
para uma nova escola ficava cada vez mais próximo do início das aulas. Na
última, uma semana antes. Não entendia nem buscava entender.
Nenhum comentário:
Postar um comentário